O inadiável!
Há
pelo menos 36 anos que buscava nos livros, textos, falas, fatos e nas terapias algo
que me definisse. Talvez tenha encontrado algumas definições, mas nada que
fosse tão clara como constatei na última semana. Sempre fui vista como a pequena,
sensível e frágil, e tudo bem (ou não). Porém, o que mais me instigava é que no
fundo no fundo eu não me via daquele jeito.
Foi
quando vivi uma experiência única: internamento da minha filha. Foram 11 dias
que pude contemplar de forma muito silenciosa o meu eu. O que estava ali guardado
e que os dias loucos daqui de fora não me deixava enxergar. Pude notar uma Polyanna
madura, segura e resiliente. Fui virada de cabeça para baixo, num lugar nada clichê
e no meio do caos. Há quem queira fugir do caos, já eu tenho uma ligação forte
e intimista com eles. Foi lá que pude me contemplar e me aplaudir. Não teve
flores, nem luzes reluzentes e tão pouco aplausos. Houve, apenas, uma
escuridão, um silêncio ensurdecedor e meu corpo vulnerável.
Ops!
RESILIENTE! É isso.
Essa é foi a virada de chave. Olhar para trás e perceber que teve inúmeros momentos difíceis e que nenhum pirei, só prova o meu ser resiliente. Mas o mais louco de tudo é que nunca me vi dessa forma. Nem cheguei perto. As definições externas influenciaram para eu achar que era tantas outras coisas, menos uma mulher forte. É a percepção que temos da gente que muda o jogo. Ali, estava com um grande espelho a minha frente e que tinha total liberdade de me ver de forma real sem definições externas.
É
verdade que decolei sem saber a hora do pouso ou se haveria pouso, mas o bacana
disso tudo foi me deparar com a Polyanna madura e ciente do que é. Viveria um
milhão de vezes experiências similares, mas preciso me recompor e abraçar essa
que tanto esteve comigo nesse tempo.
Pode
parecer uma grande bobagem vir aqui escrever sobre isso, mas prefiro seguir a
fala de Annie Ernaux e colocar em prática: "Ter vivido uma coisa, qualquer
que seja, dá o direito imprescritível de escrevê-la".



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